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simbiose

A MENINA QUE NÃO PODIA CRESCER

Certa vez recebi no consultório uma mãe buscando psicoterapia para a filha de 6 anos. A garota apresentava uma mancha avermelhada na testa e os exames laboratoriais descartaram a existência de vitiligo. Então, se considerou o estado psicológico da paciente, identificando fatores emocionais que poderiam agravar o aparecimento e a evolução da lesão.

Não é raro a pessoa procurar o médico, ser examinada, fazer exames e ouvir: “Isso não é nada. É emocional”. Se é emocional, é alguma coisa. Seria pouco sensato esperar a doença se instalar para tomar uma providência. Se existe um fator emocional que está gerando um desconforto, ele precisa ser valorizado.

É sempre bom se perguntar o que pode estar favorecendo o aparecimento dos sintomas. A reação de cada um está vinculada à genética, ao temperamento, à personalidade, à maneira de perceber e assimilar as situações.

Dentre todas as informações, solicitei também a descrição do funcionamento da família e a comunicação não verbal da mãe revelava que, enquanto havia uma escassez de trocas afetivas com o marido, parecia existir entre ela e a filha um particular entendimento. As características informadas sugeriam uma somatização na infância.

A somatização é um processo que a pessoa usa (consciente ou inconsciente) seu corpo ou sintomas corporais para fins psicológicos(mecanismo de defesa ou compensação) ou para obter ganhos pessoais.

Os sintomas mais comuns são:

– Dores de cabeça, na barriga, na lombar, nas articulações;

– Náusea, diarréia e má digestão;

– Síndrome pseudoneurológica (algum déficit neurológico, não limitado a dor: convulsão, amnésia, alucinações, entre outros);

– Alteração da pele.

Em geral, há um desejo de adquirir o papel de doente para ter ganhos primários (psicológicos e intrapsíquicos) ou secundários (sociais ou interpessoais).

Pode servir como meio de comunicação quando a expressão verbal está bloqueada e também representar uma forma de expressão de sofrimento e desconforto em pessoas que não conseguem reconhecer e verbalizar seus sentimentos.

Neste caso, Paola tem grande dificuldade para expressar que está triste com a organização disfuncional de sua família.

Durante a sessão com os pais, o diálogo entre eles, parece uma conversa entre pessoas que falam idiomas diferentes. A preocupação e ansiedade da mãe não chegam ao marido, e tão pouco suas mensagens de conforto não conseguem tranquilizar a esposa. Quanto mais o pai tenta minimizar um problema, mais a mãe insiste em sua gravidade e menos tem voz ativa dentro de casa.

Com seus sintomas, é Paola que se presta a oferecer à mãe essa voz que, por causa das regras rígidas que prevalecem na família, não pode ser expressa de outro modo. E assim, a preocupação manifestada com a doença da filha, a ansiedade e a declarada incapacidade de enfrentar a situação sozinha, é uma maneira da mãe atrair a atenção do pai para enviar a mensagem: “Necessito da sua ajuda”.

Como Paola vai crescer se, agindo como uma menina “doente”, representa a única voz com que sua mãe pode ter com o seu pai?

Com amor,

Ana Flávia Fernandes

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